Memórias de OLYMPIO GUILHERME

Em suas “Memorias”, Olympio Guilherme relata acontecimentos políticos daquela época (1934-1970) que marcaram a história do Brasil e que até hoje influenciam os acontecimentos políticos atuais.

“Minha longa permanência nos Estados Unidos – quase cinco anos – afastou-me do ambiente por mim criado em São Paulo, sobretudo no meio jornalístico. Foi assim que decidi dedicar-me exclusivamente à conclusão dos “Estudos Americanos”, obra exaustiva, em quatro volumes, editada pelo Calvino Filho, e à qual aqui me reportarei em outro capitulo. O fato é que, com o meu nome muito ligado às coisas do cinema, a que se emprestava o falso conceito de boêmia e irresponsabilidade – encontrei sérios embaraços para retornar a um ritmo de vida condizente com minhas possibilidades intelectuais.”

“Minha amarga experiência com certos editores e publicistas conduziram-me a uma conclusão desoladora: dificilmente se poderia escrever no Brasil daqueles dias, sem se submeter às restrições da mais intolerante e pertinente censura politica ou econômica por vezes exercida sub-repticiamente, outras vezes às escancaras, pelos meios mais torpes e achincalhantes.”

“A aspérrima lição por mim aprendida no lançamento dos meus quatros volumes dos “Estudos Americanos” (1934) valeu-me muito pouco durante os cinco anos que dirigi “O Observador Econômico e Financeiro”; mas infelizmente aquela provação foi esquecida em meus trabalhos posteriores, criminosamente mutilados mesmo quando escritos no exterior em forma de reportagens patronizadas por grandes jornais e revistas.

Ainda assim, não desisti, e quando em 1957 surgiu a oportunidade para que eu escrevesse uma série de reportagens sobre a gravíssima questão da energia atômica no Brasil, compreendi que nenhum jornal as publicaria sem as restrições que deformariam aquelas importantes revelações sobre a orientação que o Itamarati estava imprimindo às nossas negociações diplomáticas com os Estados Unidos, nos entendimentos secretos relativos aos célebres Acordos Atômicos.

Escrevi então “O Brasil e a Era Atômica”, que jamais seria publicado na integra por qualquer editor de primeira linha.”

“Meu novo livro “URSS x USA” só viria à luz oito anos mais tarde, depois das longas reportagens por mim escritas no Oriente Médio e na África, cuja simples recordação provoca em meu espirito a mesma indignação que me assaltou quando de regresso daquelas demoradas peregrinações jornalísticas, tomei conhecimento da criminosa mutilação a que meus originais foram submetidos antes de sua publicação por mim assinada.”

“Estes fatos coincidiram com o lançamento pela Radio Globo do Rio de Janeiro, do meu “Panorama do Mundo (1955), um programa (diário ao vivo) de 15 minutos, através do qual eu procurei fugir a censura previa aplicada impiedosamente a Letra de Forma.”

“ A matéria era das mais controvertidas no Brasil, onde apenas meia dúzia de estudiosos podia compreender a transcendente importância da luta desigual travada entre árabes e judeus, fagulha do cataclismo que até hoje paira sobre o mundo ocidental.”

“ De regresso ao Brasil, uma decepção constrangedora me aguardava: apenas três ou quatro reportagens (as menos importantes entre oito ou dez) tinham sido publicadas.”

“Trabalhei quatro anos ao lado desse homem extraordinário, até que Quitandinha, apenas inaugurada, ruiu sob o infeliz pretexto legal que proibiu a exploração de jogos de azar. Com o fechamento dos cassinos, o jogo invadiu os lares com a força incoercível de um vício inextirpável da natureza humana, mas que todas as nações regulamentam inteligentemente para que ele não se transforme numa histeria coletiva com a amplitude da Loteria Esportiva.”

“Quitandinha exerceu sobre meu espírito a influência de uma universidade da vida, com todas as suas cátedras ocupadas pelos mais conspícuos mestres que, no seu tempo, Balzac não teve oportunidade de conhecer, e que por certo teria influenciado o próprio Dostoiewski, na redação de seu fabuloso estudo sobre o jogo. Quitandinha não era apenas um suntuoso cassino, mas um luxuoso hotel que nos verões cariocas abrigava a alta-roda de milionários, mas também os elegantes pés rapados do país inteiro, que ali se misturavam sem necessidade de identificação policial, que por certo lhes barraria a hospedagem. A ficha da recepção, infelizmente era outra: a bancária. A mistura de tão heterogêneas sociedades em um hotel cujas atividades sociais e esportivas os uniam numa estranha amálgama humana haveria de produzir dramas e comédias inevitáveis, que felizmente não ultrapassavam o discreto silêncio de seus corredores atapetados.”

“Aqui desejo apenas relatar um episódio ligado ao infeliz acidente de que fui vítima ocasional.

Chateaubriand empenhara-se numa luta personalíssima com um jovem por questões particulares que não interessam a este relato, mas que o exarcebavam. As armas da refrega eram desiguais: o esfuziante jornalista brandia ao seu grande público leitor o tacape das diatribes mais rudes, arma terrível de que não dispunha seu antagonista, acuado a um canto da arena. Debalde amigos comuns tentaram apaziguar os ânimos exaltados.

A luta resvalava, cada vez mais perigosa, para o terreno escorregadio das retaliações pessoais, muito abaixo da alta posição social dos dois contendores.

Foi aquela época (1941) quando a campanha pela aviação civil atingia seu ponto mais alto, que se fixou a data para o batismo de mais um teco-teco destinado ao Aéreo Clube de Pelotas, no Rio Grande do Sul.

As cerimônias de batismo dos aviões doados a memorável campanha revestiam-se do aparato natural que Chateaubriand sabia dar às suas iniciativas. À cerimônia compareciam altas personalidades oficiais, além de numerosos convidados que prestigiavam aquele patriótico movimento. Para o batismo do avião destinado a Pelotas eu também convidara o vigário de Juiz de Fora, jovem sacerdote intimamente articulado com o movimento aviatório.

A cerimônia teve lugar, por uma radiosa manhã, na Zona Militar do Aeroporto Santos Dumont, com a presença do então Ministro da Aeronáutica, Salgado Filho, e de numerosa assistência. Concluído o batismo, quando Chateaubriand, de taça em punho, ao lado do avião, discursava eloquentemente sobre o sentido cívico do ato, surgiu no meio da assistência um jovem que partiu para o orador e, sem dizer uma palavra o prostrou por terra com um soco em pleno rosto.

Era o moço contra quem Chateaubriand, naquele mesmo dia, havia publicado mais uma de suas verrinas. Aconteceu, então, o inesperado: mesmo no solo, cego pelo champanhe esborrifado de sua taça, o jornalista sacou de sua arma. A multidão, apavorada, fugiu, aos gritos, em todas as direções. Estabeleceu-se o pânico. Eu, ao lado de Chateaubriand, tentava arrebatar-lhe a arma, segurando-lhe fortemente os braços.

Mesmo prostrado por terra e quase imobilizado por mim, o jornalista, confundindo-me com seu antagonista, conseguiu puxar três vezes o gatilho. O primeiro tiro localizou-se no ombro do agressor; o segundo perdeu-se no espaço sem ferir ninguém. Mas, em dado momento, conseguindo desvencilhar-se, Chateaubriand puxou o gatilho pela terceira vez, tomando-me pelo seu antagonista.

A bala atingiu-me em plena face. Senti um baque terrível, como se tivesse recebido no rosto o coice de uma mula, e, por instantes, apenas por segundos, perdi os sentidos. Quando voltei a mim, estava sendo arrastado para dentro do hangar, com o sangue a escorrer abundantemente pela boca onde a bala penetrara para localizar-se, com meia dúzia de pequenos estilhaços, na segunda vértebra cervical.

Depauperado por uma hemorragia que em poucos minutos me acabaria de matar, fui examinado por três ou quatro eminentes médicos...”

Assis Chateaubriand

Trechos ineditos do livro "Memórias de Olympio Guilherme":

"Foi em meio a esse ambiente de truculência – estávamos em outubro de 1950 – que recebi do presidente Getúlio Vargas um convite para visitá-lo com a máxima urgência. O convite era alarmante, tanto mais quanto, afora rápidos contatos no Conselho Federal do Comércio Exterior, no Itamarati, nunca tivera ensejo de falar-lhe sobre quaisquer dos inúmeros temas que de perto haviam despertado sua atenção, como leitor do “Observador”. A princípio, acreditei que a entrevista, realizada à noite no antigo Palácio Guanabara, versaria sobre a atitude de certa independência com que “O Observador Econômico e Financeiro”, sob minha direção, assumia na análise dos problemas nacionais.

Minha suposição se desfez logo no início da entrevista, quando o presidente solicitou minha opinião sincera sobre a censura com que a Policia arrolhava a Imprensa. A maneira como a pergunta foi feita e, sobretudo, a plena liberdade de crítica que contida na pergunta, traduziam claramente o estado de espírito do Presidente, e seu sincero desejo de conhecer a verdade sobre as violências inomináveis da Policia. Relatei-lhe, então, sem omitir nenhum fato de meu conhecimento o desserviço que a Policia de Filinto e Batista lhe prestava, sem me esquecer de salientar quanto significaria para o governo uma atitude capaz de pôr sobre aquele mundo de misérias e arbitrariedades. Depois de ouvir-me atentamente em silêncio, o presidente levantou-se, ascendeu mais um charuto e começou a caminhar compassadamente pelo grande salão onde estávamos a sós, já tarde da noite.”

Inédito

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